CHICO XAVIER E
OS SERES INTERPLANETÁRIOS
Observação:
a palavra “médium” significa, no meio
espírita: pessoa com capacidade de
contatar espíritos e deles receber influências várias.
O significado que atribuímos ao termo, neste
estudo, é um pouco diferente: pessoa dotada de singularidades psíquicas
que, em ambientes propícios, acredita ser capaz de contatar espíritos de
mortos.
A vida extraterrena despertava em Chico Xavier
grande empolgação. Da mesma forma que costuma empolgar fiéis espíritas. Embalados
pela interpretação kardecista de que a declaração de Jesus − “Na casa de Meu Pai há muitas moradas”− se
refere à vida no cosmo, médiuns vários mantêm contatos mediúnicos com viventes
espaciais, ou recebem notícias da espiritualidade, sobre a rotina de nossos
hipotéticos irmãos interplanetários. Ainda que nos dias atuais desconheça-se qualquer
evidência de viventes no sistema solar − até mesmo vida simples, como seres
unicelulares, está difícil de ser achada −, mesmo assim, sobrevive na seara
espiritista a convicção de haver seres inteligentes nos diversos planetas.
Entretanto, a fim de contornar as evidências negativas que as pesquisas
científicas apresentam, formulou-se a hipótese de “vida espiritualizada”, portanto,
inacessível aos nossos olhos e a qualquer equipamento de observação...
Conforme a visão de Kardec, supostamente revelada
por espíritos superiores, todos
os globos do universo são habitados. Levando-se ao pé da letra tal
declaração − e esta parece ter sido esta a intenção do codificador −, não
haveria um objeto celeste no qual não se encontrasse forma inteligente de vida,
o que incluiria a lua, e os satélites
dos demais planetas.
No tempo de Kardec os telescópios eram pouco potentes e os recursos modernos observação,
como as sondas espaciais, sequer se imaginavam. Desse modo, acidentes geográficos vislumbrados na lua e em
Marte pareciam construções artificiais, o que estimulava a crença de que seres dotados
de cultura tecnológica seriam nossos vizinhos. Ocorre que, já naqueles tempos, pesquisadores
contestavam a hipótese de vida nos planetas de nosso sistema, devido às
condições desfavoráveis neles presentes, e Kardec conhecia tais contestações.
Examinou-as e as deu por insustentáveis, por exemplo, a respeito da
possibilidade de habitantes na lua, disse:
...mas fizeram-se a essa idéia,
verdadeiramente sedutora, objeções tiradas da própria ciência. A Lua, diz-se,
parece não ter mais atmosfera, e, talvez, água. (...)
Não
se concebe que, uma semelhante objeção possa ser feita por homens sérios. Se a atmosfera da Lua não pôde ser
percebida, é racional que disso se infere que não exista? Não pode estar
formada de elementos desconhecidos ou muito rarefeitos para não produzir
refração sensível? Diremos a mesma coisa da água ou dos líquidos que nela
existam. Com relação aos seres vivos, não seria negar o poder divino crendo
impossível uma organização diferente da que nós conhecemos, quando, sob os
nossos olhos, a previdência da Natureza se estende com uma solicitude tão
admirável até o menor dos insetos, e dá, a todos os seres, órgãos apropriados
ao meio ao qual devem habitar, seja sob a água, o ar ou a terra, seja
mergulhados na obscuridade ou expostos ao clarão do Sol? (Revista Espírita, março de 1858)
O que diria Kardec aos espíritos, na atualidade,
ante a constatação da absoluta inexistência de vida na lua?
Dentre os planetas do sistema solar, Marte foi o que
incrementou as mais fecundas idealizações. Em regra, os marcianos eram imaginados possuidores de
conhecimentos elevados. Um efeito dessa crença foi o velado receio de que um
dias seríamos invadidos por marcianos ferozes, dispostos a aniquilar os
terráqueos, com seus canhões
ultra-hiper-super destruidores.
Curiosamente, a revelação exarada por Kardec, a respeito dos moradores de Marte, ia na
contramão da maioria das hipóteses. Para o codificador, os marcianos seriam
parvos e pouco desenvolvidos. Allan Kardec considerava o planeta vermelho o
menos instruído em todo o sistema solar, enquanto Júpiter seria o de maior
progresso. Nada obstante a observação de Kardec sobre Marte constar de uma nota
de rodapé em o Livro dos Espíritos, ele afiança que a informação lhe fora passada
pela elevada espiritualidade e, portanto, merecedora de todo o crédito. Mais tarde, na Revista Espírita, Kardec confirmou o que
registrara no códice e teceu considerações mais amplas sobre o assunto.
O atraso mental dos marcianos, imaginado pelo líder
espírita, suscitou dificuldades doutrinárias. Visto que a tendência disseminada
era considerar os de Marte mais desenvolvidos que os da Terra, surgia a
dificuldade: como conciliar a palavra do
codificador, sobre marcianos em estado primitivo, com o sonho geral de que fossem
superinteligentes?
As soluções foram de diversas modalidades. Alguns
simplesmente não deram ouvidos ao postulado kardecista − mesmo sendo seguidores
de seus ensinos −, e apresentaram suas
próprias conclusões, dando a elas o status
de verdade verdadeira, ou de verdadeira verdade. Possivelmente o primeiro choque
tenha ocorrido entre a palavra do codificador e a de seu amigo Camille
Flammarion.
Não dispomos de informações sobre o quanto
Flammarion conhecia dos escritos kardequianos. Sabe-se que o astrônomo era um
inflamado adepto do pensamento espírita. Apesar disso, muitas de suas
considerações batem de frente com a explanação de Kardec. Uma delas é a teoria
dos mundos habitados, vejamos o que diz um e outro. (Destaques nos textos de
nossa autoria)
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TEORIA DOS
MUNDOS HABITADOS |
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KARDEC |
FLAMMARION |
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Pluralidade dos mundos 55. São habitados todos os globos que se
movem no espaço? “Sim
e o homem terreno está longe de ser, como supõe, o primeiro em inteligência,
em bondade e em perfeição. Entretanto, há homens que se têm por espíritos
muito fortes e que imaginam pertencer a este pequenino globo o privilégio de
conter seres racionais. Orgulho e vaidade! Julgam
que só para eles criou Deus o Universo.” Deus povoou de seres vivos os mundos, concorrendo todos
esses seres para o objetivo final da Providência. Acreditar que só os haja no planeta que habitamos
fora duvidar da sabedoria de Deus, que não fez coisa alguma inútil. Certo, a
esses mundos há de ele ter dado uma destinação mais séria do que a de nos
recrearem a vista. Aliás, nada há, nem na posição, nem no volume, nem na
constituição física da Terra, que possa induzir à suposição de que ela goze
do privilégio de ser habitada, com exclusão de tantos milhares de milhões de
mundos semelhantes. (O Livro dos Espíritos) |
A
vida universal! disse eu. Os planetas do nosso sistema solar serão todos
habitados? ... São habitados os milhares de mundos que povoam o infinito?... Essas
Humanidades assemelham-se à nossa?... Conhecê-las-emos algum dia? ... -
Nenhuma razão há,
acrescentou Urânia, para que todos os mundos sejam habitados agora. A época
presente não tem mais importância do que as precedentes ou as que se hão de
seguir. A duração da existência da Terra será muito mais longa - talvez dez
vezes - mais longa - do que a do seu período vital humano. Em uma dezena de mundos,
tomados ao acaso na imensidade, poderíamos, por exemplo, conforme os casos,
achar apenas um atualmente habitado por uma raça inteligente. Uns o
foram outrora; outros sê-lo-ão no futuro; estes se acham em via de
preparação, aqueles têm percorrido todas as suas fases; aqui, berços; além,
túmulos; e depois, uma variedade infinita se revela nas manifestações das
forças da Natureza, não sendo a vida terrestre de modo algum o tipo da vida
extraterrestre. Seres podem viver, em organizações inteiramente diversas das
conhecidas no vosso planeta. Os habitantes dos outros não têm a vossa forma,
nem os vossos sentidos. São outros. (Livro de Urania) |
Kardec, alegadamente assessorado pela alta
espiritualidade, garantia que todos os globos celestes seriam
habitados. Seu amigo Flammarion, dedicado pesquisador dos astros e dado a
visões mediúnicas, não se inibiu de asseverar coisa bastante diferente: o fenômeno vida ocorria em cerca de dez por
cento dos corpos celestes. Hoje, sabe-se que ambos estavam equivocados... Este
é um forte indício de que tais lucubrações, embora atribuídas à revelação
espiritual, advêm, em verdade, das próprias cogitações de seus idealizadores.
No tempo de Kardec a suposição generalizada de que
Marte era habitado já tomara forma. Especulamos que, no entanto, ainda não
ganhara força a idéia de que inteligências superiores ali vivessem. Talvez, por
isso, Allan Kardec tenha optado por colocar naquele planêta seres primitivos.
Gradativamente, porém, foi conquistando proeminência a concepção de que
civilizações avançadas residiriam no orbe vizinho. Em conseqüência, o
ensinamento do codificador perdeu
terreno.
Flammarion era um astrônomo respeitado na segunda
metade do século XIX, era também um grande sonhador; por conta dessa qualidade,
divagou o quanto quis a respeito das características de nossos imaginados
irmãos do sistema solar. Façamos nova comparação entre o pensamento de Kardec e
o de seu amigo.
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VIDA NO
SISTEMA SOLAR |
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KARDEC |
FLAMMARION |
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Segundo
os Espíritos, de todos os mundos que compõe o nosso sistema planetário,
a Terra é dos de habitantes menos adiantados, física e moralmente. Marte lhe estaria ainda abaixo,
sendo-lhe Júpiter superior de muito, a todos os respeitos. O Sol
não seria mundo habitado por seres corpóreos, mas simplesmente um lugar
de reunião dos Espíritos superiores, os quais de lá irradiam seus pensamentos
para os outros mundos, que eles dirigem por intermédio de Espíritos menos
elevados, transmitindo-os a estes por meio do fluido universal. Considerado
do ponto de vista da sua constituição física, o Sol seria um foco de eletricidade. Todos os
sóis como que estariam em situação análoga. (...) Muitos Espíritos, que na Terra animaram personalidades
conhecidas, disseram estar reencarnados em Júpiter, um dos mundos mais próximos da perfeição,
(...). Finalmente, cumpre se considere que, naquele mundo, como no nosso,
múltiplos são os graus de desenvolvimento e que, entre esses graus, pode
medear lá a distância que vai, entre nós, do selvagem ao homem civilizado.
Assim, do fato de um Espírito habitar Júpiter não se segue que esteja no nível
dos seres mais adiantados, do mesmo modo que ninguém pode considerar-se na categoria
de um sábio do Instituto, só porque reside |
Dia virá, e mui proximamente, pois que estás chamado a vê-lo, em que
o estudo das condições da vida nas diversas províncias do Universo será o
objeto essencial - e o grande encanto - da Astronomia. (...) penetrarão o mistério da sua
organização vital e discutirão a respeito dos respectivos habitantes. Afirmarão que Marte e Vênus se
acham atualmente povoados de seres pensantes; que Júpiter está ainda no seu
período primário de preparação orgânica; que Saturno plana em
condições inteiramente diferentes das que presidiram ao estabelecimento da
vida terrena, e, sem jamais passar por estado análogo ao da Terra, será
habitado por seres incompatíveis com os organismos terrestres. Novos métodos
farão conhecer a constituição física e química dos astros, a natureza das
atmosferas. Instrumentos aperfeiçoados permitirão mesmo descobrir os
testemunhos diretos da existência dessas Humanidades planetárias, e pensar em
estabelecer comunicação com elas. Eis a transformação científica que há de assinalar o fim do
décimo-nono século e que há de inaugurar o vigésimo. (...) Todos os
mundos, acrescentou ele, não são atualmente habitados. Uns estão na aurora,
outros no crepúsculo. Em nosso sistema solar, por exemplo, Marte, Vênus,
Saturno e vários dos seus satélites parecem em plena atividade vital; Júpiter parece não ter
ultrapassado o seu período primário; a Lua já não tem, talvez, habitantes.
... (Livro de Urania) |
À medida que examinamos os escritos de Kardec,
comparando-os com os de Flammarion, notamos as discrepâncias crescerem. Vimos,
acima, que Kardec dizia que Júpiter, embora estivesse “próximo da perfeição”,
abrigava níveis variados de seres evoluídos. Essa idéia harmonizava com a
concepção do codificador de que algumas raças eram superiores a outras. Júpiter
deveria vivenciar igual situação. Entretanto, Camille Flammarion tinha outra
interpretação.
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KARDEC |
FLAMMARION |
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Finalmente, cumpre se considere
que, naquele mundo, como no nosso, múltiplos são os graus de desenvolvimento
e que, entre esses graus, pode medear lá a distância que vai, entre nós, do
selvagem ao homem civilizado. Assim, do fato de um Espírito
habitar Júpiter não se segue que esteja no nível dos seres mais adiantados,
do mesmo modo que ninguém pode considerar-se na categoria de um sábio do
Instituto, só porque reside em Paris. (O Livro dos Espíritos) |
- Jamais, repôs um dos Marcianos, jamais vosso planeta medíocre
atingirá a perfeição do nosso. Sois muito espessos. (...) Nossos adolescentes possuem tanta ciência inata quanto Pitágoras,
Arquimedes, Euclides, Képler, Newton, Laplace e Darwin após todos os seus
laboriosos estudos. Os nossos doze sentidos nos põem em comunicação direta
com o Universo; sentimos daqui, a cem milhões de léguas, a atração de Júpiter
que passa; vemos a olho nu os anéis de Saturno; adivinhamos a chegada de um
cometa, e o nosso corpo está impregnado da eletricidade solar, que põe |
Nada obstante o discurso de Kardec referir-se à
Júpiter, a idéia nela contida podia ser aplicável a qualquer globo. Entretanto,
para o astrônomo francês os variados graus de evolução racial vistos por Kardec
não existiam.
Entre Flammarion e Kardec havia divergências
inconciliáveis
Necessário destacar que o escrito de Kardec é tido
como revelação dos espíritos. Desse modo, o que o codificador escreveu
corresponderia ao saber privilegiado da espiritualidade, em muito superior ao da ciência terrena. A obra de Flammarion tem o aspecto
de visão profética ou reveladora. Em ambos os casos, no entanto, o que cada um
disse não ia além do conhecimento científico da época, acrescido das
múltiplas fantasias que formularam. Em suma, nada de espiritualidade em
comunicação, apenas férteis imaginações em atividade.
Vejamos exemplo de como o astrônomo interpretava
suas observações telescópicas do planeta Marte:
Nas noites subsequentes, observei Marte com o
telescópio, mas distraído por mil estranhas idéias. O planeta aparecia, no
entanto, admirável, e assim se mostrou durante toda a primavera e todo o verão
de 1888. Vastas inundações
se haviam produzido em um de seus continentes, na Líbia, tal qual já os
astrônomos observaram em 1883 e
A paisagem de Marte, hoje se sabe, é de uma
desolação infinda, no entanto, ante os
olhos generosos de Flammarion se transformava, regurgitando belas visões. O astrônomo descortinou
no ressequido planeta grandes inundações. Observou neve nos pólos e, em outro trecho, fala de “árvores despidas de folhas, cobertas de gigantescas flores vermelhas”. Para completar − pasmem! −
descreve cidades superpopulosas:
- Quais são os países de Marte mais povoados?
Somente as regiões polares (onde da Terra se
avistam as neves e os gelos derretendo-se em cada primavera) são as inabitadas;
a população das regiões temperadas é muito densa; mas são, ainda assim, as
terras equatoriais as mais povoadas (a população é tão densa ali quanto a da China) e,
principalmente, às margens dos mares, apesar das enchentes. Grande número de
cidades são edificadas quase sobre a água, de algum modo suspensas nos ares,
dominando as inundações de antemão calculadas e esperadas.
É provável que a suposição da existência de
inundações no planeta Marte fosse comum aos astrônomos da época, visto não
conseguirem observar adequadamente, devido às limitações dos equipamentos
disponíveis. Entretanto, Flammarion inseria nesse panorama as coloridas idéias
provindas de seus sonhos. O único dado que bate com as suposições da época, em
vista das pesquisas atuais, é a existência de geleiras nos pólos marcianos.
Por conta do que já vimos, que mostra o quanto a
imaginação permeia os supostos contatos mediúnicos, é possível apresentar uma definição do seja mediunidade: a soma dos conhecimentos do médium, acrescidas das idealizações que sua mente formula.
E Chico Xavier, onde entra? Logo, logo o veremos: o
médium despontou na ciranda espacial em inícios de 1930, com o livro “Cartas de
uma morta” e depois com uma crônica mediúnica, cuja autoria foi imputada a
Humberto de Campos. perceberemos que entre Chico e Flammarion existem alguns
laços curiosos.
Antes de chegarmos a Chico, falaremos de famosa
médium, cujo prestígio era elevado no início do século XX: Catherine Elise
Muller of Geneva, mais conhecida como Hélène Smith.
Hélène Smith foi cognominada por muitos a “maior
médium de todos os tempos”. Algo como um Chico
Xavier de saias e chegou a realizar feitos que o médium mineiro não ousou.
À semelhança de Chico, com Emmanuel, Hélène possuia um alter ego, chamado Leopoldo,
cuja personalidade, dizia-se, era completamente distinta da da médium, o que
reforçava a idéia de que se tratava de um legítimo ente espiritual a
assessorá-la.
A médium realizava contatos mediúnicos com Marte e tornou-se
especializada em conversar com os habitantes daquele planeta, alguns dos quais seriam
almas humanas lá reencarnadas. O ápice do trabalho mediúnico de Hélène se deu
quando passou a falar em marcianês. É
fato de que a língua constitue o grande ponto fraco de médiuns e
regressionistas. Certo médium nacional diz “receber” o espírito de um médico
alemão, mas se provocado a um diálogo germânico, o espírito lembra que esqueceu
a panela no fogo e desaparece. De modo semelhante, pessoas que regridem a vidas
passadas recordam múltiplas identidades, em várias civilizações, quais a egípcia,
romana, judaica, inca, atlante... e até entre extraterrenos. Entretanto, se
essas nobres figuras são convidadas a discursarem em seus “idiomas natais” o
fracasso é retumbante.
Com Hélène Smith tal não se dava, em várias ocasiões
a médium vertera mensagens ditas espirituais em vários linguajares, pois a moça
era habilidosa com idiomas. O marciano de Hélène ia além de mera sucessão de sons
desconexos. Crianças e adolescentes brincam de “falar” em outras línguas, mas a
qualquer observador é clara a simulação. Em certos ambientes religiosos se vê
algo parecido: fiéis alegam discorrer em “línguas
estranhas” e tartamudeiam palavras soltas, frases curtas, sem semelhança
com o discurso normal. Hélène Smith, contudo, se pronunciava com a firmeza de quem domina um
idioma estrangeiro. Manifestava-se com segurança e coerência. Filologistas examinaram as
mensagens marcianas: constatou-se que se
tratava de língua real, embora o significado das palavras fosse desconhecido, a
estrutura lingüistica se reconhecia claramente.
Aparentemente, não havia dúvida: o contato
inteligente com os marcianos fora obtido! Se tal fosse verdadeiro, um mundo
novo se abria perante a humanidade. No
entanto, no caminho de Hélène estava Theodore Flournoy, psicólogo que acompanhou
o trabalho da médium por um bom tempo. Flournoy reconhecia o indiscutível
talento de Hélène, mas não estava convencido de sua mediunidade. Observara
deslizes nos papéis que a moça representava, como quando declarou-se
reencarnação de um personagem literário, chamado Lorenzo Feliciani. Ao ser
noticiada que Feliciani fora criação de Alexandre Dumas, Hélène não falou mais
no assunto...
Flournoy estudou criteriosamente o marciano falado
por Hélène Smith. Concluiu que o idioma fora inteiramente construído sobre a
formatação da língua francesa. O subconsciente da médium elaborara uma complexa
estrutura fonética, toda ela calcada no francês. Era um feito admirável, mas
que desbancava a suposição mediúnica: em realidade, a bem elaborada mediunidade
de Hélène Smith provinha de suas peculiaridades psíquicas.
Com Chico Xavier ocorreu caso parecido. A principal
personalidade espiritual que o acompanhava era o espírito Emmanuel, codinome
de Publius Lentulus. O caso é que
existem bons estudos, disponíveis da internet, que demonstram seguramente a
inviabilidade histórica de Lentulus, levando-nos à conclusão de que tal figura
foi construída pela psique do médium.
Essa constatação seria suficiente para pôr por terra
a tese da comunicação com espíritos. Entretanto, o mito Chico Xavier é muito
forte. Necessário se faz a realização de outros estudos, de modo a evidenciar
que o médium extraía de seus próprios dons naturais as mensagens imputadas à
espiritualidade.
Em decorrência, continuaremos nossa investigação,
objetivando responder de onde provinham
as informações sobre Marte, relatadas pelo bondoso Chico Xavier.
CARTAS DE UMA
MORTA
O livro relata a aventura de Maria João de Deus no
além-túmulo; esta era a mãe de Chico Xavier, falecida em 1915, quando o médium contava cinco anos. Da
leitura, uma curiosidade salta à vista: Maria escreve à maneira de Chico Xavier:
a narrativa é toda vertida no mesmo estilo melífluo do médium, Chico Xavier
parece ter esquecido de criar um modo de escrever próprio para a mãe. Mais um indício
de que a mão de Chico simulava ser a mãe de Chico. No início da obra Maria João
assim se pronuncia:
Quero crer
que a angústia, que naquele momento avassalou a minh’alma, originou-se da
profunda mágoa que me ocasionava a separação do lar e dos afetos familiares,
pois, apesar de crer na imortalidade, sempre enchiam-me de pavor os aparatos da
morte; e dentro do catolicismo, que eu professava fervorosamente,
atemorizava-me a perspectiva de uma eterna ausência.
Desnecessário
dizer que a genitora do médium, que se confessava em vida ardorosa adepta do
catolicismo, no além converteu-se ao espiritismo, passando a visitar os vivos e a defender a
reencarnação.
Antes de visitar o planeta Marte, Maria João de Deus
fala de uma excursão de estudos que realizara a um mundo de localização não
revelada. O ponto digno de destaque são as similaridades entre a narrativa de
Chico Xavier e o escrito de Camille Flammarion, vejamos:
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CHICO XAVIER / Maria João |
CAMILLE FLAMMARION |
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Três Sóis de Cores
Diversas Penetramos numa atmosfera rosada,
plena de luz, mas de claridade suave, que se irradiava espalhando sons dentro
da mais harmoniosa das cadências que os meus ouvidos escutaram nas condições
de minha nova vida. Sobre as nossas frontes, contemplávamos, então, um sol magnífico, cor-de-rosa
quase enrubescido, emprestando ao ambiente, em que nos movíamos, as
mais estranhas cambiantes.
Todavia, não ficou aí a novidade. A seguir, percebemos que uma estrela esverdeada brilhava no infinito
dos céus, misturando as suas claridades esmeraldinas com as tonalidades
róseas, que se estampavam em todas as coisas e, de repente, enquanto
uma dessas estrelas se encontrava no zênite e a outra prestes a desaparecer
nos horizontes desse planeta maravilhoso, outro sol surgia, amarelo, cor de laranja amadurecida,
tonalizando como um elemento novo as paisagens. ousadas concepções dos
pintores terrenos ficaria aquém das sublimes realidades por nós observadas,
referentes aos efeitos da luz, nesse sistema de encantamentos. |
(...)
uma nova luz, pálida, azulada, bastante estranha, chegava da região para a
qual Urânia me conduzia. Essa claridade nada tinha de terrestre, e não me
recordava nenhum dos efeitos que eu havia admirado nas paisagens da Terra,
nem entre os tons tão cambiantes
dos crepúsculos depois da tempestade, nem nas brumas indecisas da manhã, nem
durante as horas calmas e silenciosas do clarão da Lua no espelho do mar. (...)
Qual não foi a minha estupefação, quando me apercebi de que nos aproximávamos, com efeito,
de um sol absolutamente azul, igual a um disco brilhante que houvesse
sido recortado nos nossos mais belos céus terrestres, e destacando-se
luminosamente em um fundo todo negro, todo constelado de estrelas! (...) O
sol azul crescia a olhos vistos; mas, novidade tão singular quanto a
primeira, a luz com que ele iluminava o dito planeta se complicava de um
certo lado com uma coloração verde. Olhei de novo para o céu e avistei um
segundo sol e esse de um belo verde-esmeralda! Não acreditava em meus olhos. - Estamos
atravessando, disse Urânia, o sistema solar de Gama de Andrômeda, do qual
ainda não vês mais do que uma parte, pois ele se compõe, na realidade, não
desses dois sóis, mas de três, um azul, um verde, e um amarelo-laranja. O sol
azul, que é o menor, gira em torno do sol verde, e este gravita com seu
companheiro em redor do grande sol alaranjado que vais avistar dentro em
pouco. |
É certo que os sóis são de cores diferentes, mas
parece que Chico inspirou-se na narrativa de Flammarion para idealizar um
sistema trisolar parecido.
Vejamos, agora, a viagem de Maria João de Deus a
Marte. Observaremos que Chico Xavier deixou Kardec de lado e optou por inspirar-se
na visão de Camille Flammarion: em vez de deparar marcianos rudes e primitivos,
encontrou um povo avançado e dotado de poderes especiais. Parece que, do codificador, Chico conservou
tão-somente a tese da pluraridade dos mundos habitados, o que, conforme vimos,
não era apoiada por Flammarion.
Todas essas distantes pátrias, que os vossos
telescópios focalizam, dentro da noite imensa, não poderiam estar vazias e
abandonadas. Não se compreende uma cidade edificada, rica de monumentos e
obras, sem habitantes e sem vida. Os planetas, que rolam no infinito, constituem a família universal, por
excelência. Cada um deles comporta uma humanidade, irmã de todas as outras que
vibram na imensidade. (Cartas de
Uma Morta)
Mesmo levando em conta essa “concessão” ao
codificador, o sonho marciano de Chico Xavier foi inteiramente erigido na
plataforma montada anteriormente por Flammarion, conforme veremos:
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MARTE na visão de FLAMMARION (Extraídos de O Livro de
Urânia) |
MARTE na visão de CHICO XAVIER |
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A
maior disparidade entre os mundos
consiste certamente na grande elevação da nossa Humanidade sobre a da Terra. Essa
superioridade é devida principalmente aos progressos realizados pela ciência
astronômica e
à propagação universal, entre todos os habitantes do planeta, dessa ciência
sem a qual é impossível pensar com acerto, sem a qual não se tem senão idéias
falsas sobre a Criação, sobre os destinos. |
Nas questões astronômicas são eminentemente mais adiantados do
que seus companheiros da Terra, compreendendo todos os fenômenos e a maior
parte dos mistérios da natureza do vosso planeta. |
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Há
muito menos água em Marte do que na Terra, e muito menos nuvens. |
As águas são muito mais raras. As chuvas
quase que se não verificam, mostrando-se o céu geralmente sem nuvens. |
|
A
maior parte das nossas plagas são praias, planícies iguais. Poucas montanhas
possuímos, e os mares não são fundos. |
Vi oceanos, apesar da água se me afigurar
menos densa e esses mares muito pouco profundos. |
|
Os
habitantes aproveitam esses transbordamentos para irrigação das vastas
campinas. Têm retificado, alargado, canalizado os cursos de água, e
construído nos continentes uma rede inteira de imensos canais. |
Há ali um sistema de canalizações, mas não
por obras de engenharia dos seus habitantes, e sim por uma determinação
natural da topografia do planeta que põe em comunicação contínua todos os
mares. [Observação: aqui Chico Xavier introduz uma variante ao discurso
de Flammarion, enquanto aquele afirma que os canais são trabalhados pelos
marcianos, Chico preferiu vê-los unicamente obra natural] |
|
A
maior parte das nossas plagas são praias, planícies iguais. Poucas montanhas possuímos,
e os mares não são fundos. |
Não
vi montanhas, sendo notáveis as planícies imensas, onde os felizes
habitantes desse orbe desempenham as suas atividades consuetudinárias. [Observação: ambos se equivocaram: as mais elevadas montanhas do
sistema solar estão em Marte. Foram vistas elevações com |
|
Vós outros sois todos,
mais ou menos, carniceiros. Tendes os braços cheios de sangue; os estômagos
estão repletos de vitualhas. [Observação:
Flammarion acreditava que as árvores se nutriam exclusivamente pelas folhas,
parece que não sabia que as raízes também desempenham papel nutricional. Em
decorrência, coloca a errônea convicção na boca dos evoluídos marcianos, que
deveriam saber disso...] |
[Observação: Chico, além de assumir a posição condenatória de
Flammarion, contra o regime onívoro do homem, até fez uso da palavra pouco comum utilizada
por Flammarion: vitualhas
(mantimentos)] |
|
Assim,
há ali, quanto na Terra, uma sucessão de dias e de noites que não difere
essencialmente do que existe aqui, sendo de 24 horas, 39 minutos e 35
segundos a duração do dia e noite. Havendo 668 desses dias no ano marciano,
temos mais tempo para os nossos trabalhos, investigações, estudos e
divertimentos. |
O dia
ali é igual ao da Terra, pois conta 24 horas e quase 40 minutos, mas os anos
constam de 668 dias, tornando as estações mais demoradas, sem transformações
bruscas de ordem climática que tanto prejudicam a saúde humana. [Observação: para que não ficasse “igualzinho” Chico substituiu
os “39 minutos e 35 segundos”, de Flammarion, por “quase 40 minutos”. |
|
Nunca
tivemos vapor, nem caminhos de ferro, porque conhecemos sempre a eletricidade, e a
navegação aérea nos é natural. As nossas frotas são movidas pela
eletricidade, e mais aéreas do que aquáticas. (...) Além
disso ainda, sendo a Humanidade marciana várias dezenas de milhares de
séculos anterior à terrestre, tem percorrido anteriormente a esta todas as
fases do seu desenvolvimento. Os mais transcendentes progressos científicos
atuais da Terra não passam de pueris brinquedos de criança, comparados à
Ciência dos habitantes daquele planeta. |
Disse-me, ainda, o mestre desvelado, que os marcianos já
descobriram grande parte dos segredos das forças ocultas da natureza.
Conhecem os profundos enigmas da eletricidade, sabendo utilizá-Ia com maestria. [Observação: Nos tempos de Flammarion, e mesmo na época que
Chico escreveu “Cartas de uma morta”, as maravilhas da eletrônica, que
começaram a despontar na década de 1960, não eram sequer imaginadas. Daí a
sintomática situação dos marcianos: séculos de tecnologia à frente dos
terráqueos e não possuíam televisão, celular, computador... Se na atualidade
algum médium recebesse informes de Marte, certamente falaria dos computadores
ultra-avançados de que dispunham. Mas, tanto Chico quanto Flammarion, como
não tinham a mínima idéia do assunto, nada disseram. Outra evidência de que as
visões mediúnicas que prolataram eram
frutos de seu próprio conhecimento. |
|
Duas
luas se acenderam em diversas alturas, a primeira em forma de crescente, por
cima do lago em cujo seio o Sol se sumira; a segunda em forma de primeiro
quarto, muito mais elevada no céu e para do Oriente. Eram muito pequenas e
não lembravam senão de longe o imenso facho das noites terrestres. Dir-se-ia
que de mal grado davam a sua viva, mas pequena claridade. |
Em vez
do satélite, que ilumina as vossas noites, observei que Marte é servido por
dois. Duas luas que parecem gravitar uma em torno da outra, porém menores,
muito menores que a vossa. |
|
Os
habitantes de Marte são muito superiores aos da Terra, pela sua organização,
pelo número e pela delicadeza de seus sentidos, e pelas faculdades
intelectuais. O fato de ser a densidade muito fraca na superfície daquele
mundo, e as substâncias constitutivas dos corpos menos pesadas lá do que
aqui, permitiu a formação de seres incomparàvelmente menos pesados, mais aéreos, mais
sutis, mais sensíveis. |
Vi homens mais ou menos semelhantes aos nossos irmãos
terrícolas, mas os seus organismos possuíam diferenças apreciáveis. Além dos
braços tinham ao longo das espáduas ligeiras protuberâncias à guiza de asas
que lhes prodigalizavam interessantes faculdades volitivas. Percebi que a vida da
humanidade marciana é mais aérea. [Observação: marcianos voadores, tanto Chico, quanto Flammarion,
os viram...] |
|
Se, por exemplo, pudéssemos entrar algum dia em
comunicação com a terra vizinha em que habitas, não em comunicação psíquica
com um ser isolado, qual o faço neste momento, mas com o próprio planeta, por
centenas e milhares de testemunhos, seria isso um gigantesco vôo para o
progresso. -
Poderiam consegui-lo desde já, se o quisessem ; pois, pelo que nos toca, em Marte, estamos inteiramente
preparados para isso, e o temos mesmo tentado já por muitas vezes. Os
da Terra, porém, jamais nos responderam! Refletores solares, desenhando em
vossas vastas planícies figuras geométricas, provavam que existimos. Poderiam
responder-nos com figuras semelhantes, traçadas em suas planícies, ou durante
o dia, ao sol, ou durante a noite, com a luz elétrica. Vós outros, porém, nem
nisso mesmo pensais e, se alguém propusesse tenta-lo, os juízes
declará-lo-iam interdito, pois só essa idéia está inacessivelmente acima do
consenso universal dos cidadãos do teu planeta. Em que se ocupam as suas assembléias
científicas? Em conservar o passado. Em que se ocupam as suas assembléias
políticas? Em aumentar os. encargos públicos. No reino dos cegos os zarolhos
são reis. |
[Observação: No trecho ao lado, Flammarion, no seu sonho
mediúnico, foi informado de que os marcianos tentavam contato com os da
Terra, os quais não lhes respondiam. Portanto, ele se referia a seres de
carne e osso, que queriam ser vistos pelos daqui. Isso põe por terra a
alegação de que quando os visionários falam de Marte, referem-se a uma
vivência espiritualizada, fora do alcance de nossas vistas e dos equipamentos
de detecção que a tecnologia terrena domina... Na crônica de Chico Xavier, que diz ser de Humberto de Campos, na
próxima tabela, encontraremos a mesma versão que aqui apresenta Flammarion, a
de que os marcianos tentam, em vão, contato com a Terra. Um dos trechos diz: "Irmãos,
ainda é inútil toda tentativa de comunicação com a Terra rebelde e
incompreensível! ] |
_______________________________
Vejamos, para finalizar o presente estudo, trechos da “viagem” de Humberto de Campos a
Marte, com nossos comentários. Neste episódio, Chico Xavier põe na boca do
grande escritor falecido, que não pode se defender ou protestar, uma
extravagante narrativa.
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MARTE na
visão de “Humberto de
Campos” |
MARTE na
visão de Allan Kardec |
|
Enquanto
os astrônomos europeus e americanos examinam, cuidadosamente, os seus
telescópios, para a contemplação da paisagem de Marte, à distância de quase
trinta e sete milhões de milhas, preparando as lentes poderosas de seus
instrumentos de ótica, fomos felicitados com uma passagem gratuita ao nosso
admirável vizinho do sistema solar(...). |
O
suposto espírito de Humberto de Campos apresenta-se como observador
privilegiado: os astrônomos terrenos
tentavam ver alguma coisa de Marte por meio de telescópios (mais adiante,
dirá que são fraquinhos, comparados com os de Marte); enquanto ele observava
in loco, podendo, pois, dar testemunho muito mais seguro. Vamos ver se de
fato foi assim... |
|
A descrição das viagens, desde o princípio deste século, é uma das modalidades mais interessantes da
literatura mundial; todavia, o homem que vá do Rio de Janeiro a Tóquio, de
avião, sem escalas de qualquer natureza, não pode descrever o caminho, com os
seus detalhes mais interessantes. (...) para se fazer entendido pelos
companheiros da carne, teria de recorrer às figuras mais atrevidas do mundo
mitológico. É
por isso que apelarei
aqui para o véu de Ísis ou para o dorso de Pégaso, cuja patada fez brotar a fonte de
Hipocrene, no Hélicon das divindades. |
O que
o autor nos diz é que não realizará a
descrição da viagem, porque se o fizesse talvez tivesse pouco a dizer. No
século XIX e parte do séc. XX, o estudo dos clássicos e da Bíblia era comum
nas escolas. Os escritores costumavam fazer constantes citações de
personagens da mitologia, que eram facilmente entendidas pelos leitores. Na
atualidade, a leitura dos textos clássicos foi posta de lado,
consequentemente, para os leitores modernos nem sempre é fácil
compreender as referências a tais
figuras. Pégaso
era um cavalo alado, que nascera do sangue da medusa, morta por Perseu.
Segundo algumas versões, quando o herói Belerofonte conseguiu domar o potro e
o cavalgou, este, com um coice criou a fonte Hipocrene, no local onde
habitavam as ninfas. Ísis
era divindade egípcia, também conhecida na Grécia. Seu véu esconderia dos
homens o que estava por detrás das
aparências, ou seja, a realidade das coisas. A
expressão usada por Chico − “apelar para o véu de Ísis” − significa que
manterá o relato do percurso até Marte oculto. |
|
Ao longe, divisei cidades
fantásticas pela sua beleza inédita, cujos edifícios, de algum modo, me
recordavam a Torre Eiffel ou os mais ousados arranha-céus de Nova York. Máquinas possantes, como
se fossem movidas por novos elementos do nosso “hélium” balouçavam-se, ao pé
das nuvens, apresentando um vasto sentido de estabilidade e de harmonia,
entre as forças aéreas. O que
deparamos na narrativa de Chico Xavier é a continuidade de sua adesão ao
pensamento de Flammarion. O pior, sem qualquer explicação sobre o porquê de
ter desprezado o códice kardecista. |
Humberto,
que em vida era dedicado pesquisador, parece não ter tido tempo de ler os
escritos de Allan Kardec. Se o fizesse encontraria os comentários: Suas moradias grosseiras, baixas como covil de feras,
são repelentes pela incúria e pela desordem que aí reinam. (Revista Espírita – out/1860) Sem indústrias, sem invenções, os habitantes de Marte
gastam sua vida para conquista de seu alimento. (Revista Espírita – out/1860) |
|
O
planeta avançado que “Humberto de Campos” observou em nada corresponde àquele
descrito pelos espírito superiores a Allan Kardec. Tive
então ensejo de contemplar os habitantes do nosso vizinho (...). Notei,
igualmente, que os homens de Marte não apresentam as expressões psicológicas
de inquietação, em que se mergulham os nossos irmãos das grandes metrópoles
terrenas. Uma aura de profunda tranqüilidade os envolve. |
“Nele veremos todas as
paixões desencadeadas e sem freio; o estado moral no último grau de
embrutecimento; a vida animal em toda a sua brutalidade; nada de laços
sociais, porque cada um não vive e não age senão para si e para satisfazer os
seus apetites grosseiros; o egoísmo nele reina com soberania absoluta, e
arrasta consigo o ódio, a inveja, o ciúme, a cupidez, a morte.” (Revista Espírita – março/1858) |
|
(...), os marcianos já
solucionaram os problemas do solo e já passaram pelas experimentações da vida
animal, em suas fases mais grosseiras. Não conhecem os fenômenos da guerra e
qualquer flagelo social seria, entre eles, um acontecimento inacreditável. (...) em Marte, o problema da alimentação
essencial, através das forças atmosféricas, já foi resolvido, sendo
dispensável aos seus habitantes felizes a ingestão das vísceras cadavéricas
dos seus irmãos inferiores, como acontece na Terra, superlotada de
frigoríficos e de matadouros. |
Eles não são canibais; suas contínuas batalhas não têm
por objetivo senão a posse de um terreno mais ou menos abundante em caça.
Caçam |
|
A vegetação de Marte,
educada em parques gigantescos, sofria grandes modificações, em comparação
com a da Terra. É de um colorido mais interessante e mais belo, apresentando
uma expressão avermelhada em suas características gerais. |
Neste planeta a terra é árida; pouca verdura; uma
folhagem sombria que a primavera não rejuvenesce; um dia igual e cinza; o
sol, apenas aparente, nunca prodigaliza as suas festas; o tempo escoa
monótono, sem as alternativas e as esperanças das estações novas; não há
inverno, não há verão. (Revista Espírita – out/1860) |
|
Todos os grandes centros
deste planeta, (...) sentem-se incomodados pelas influências nocivas da Terra, o único orbe de aura
infeliz, nas suas vizinhanças mais próximas, e, desde muitos anos,
enviam mensagens ao globo terráqueo, através das ondas luminosas, as quais se
confundem com os raios cósmicos, cuja presença, no mundo, é registada pela
generalidade dos aparelhos radiofônicos. |
Marte
é um planeta inferior à Terra da qual é um esboço grosseiro; não é necessário
habitá-lo. Marte é a primeira encarnação dos demônios mais grosseiros; os
seres que o habitam são rudimentares; têm a forma humana, mas sem nenhuma
beleza; têm todos os instintos do homem sem o enobrecimento da bondade. (Revista Espírita – out/1860) |
|
Aparelhos luminosos foram
afixados, na praça pública, ao passo que presenciávamos a exibição de mapas
quase irrepreensíveis dos nossos continentes e dos nossos mares. Teorias
notáveis com respeito à situação espiritual do planeta terrestre foram
expendidas, entendendo perfeitamente as idéias dos estudiosos que as
expunham, através da linguagem universal do pensamento. |
(...)o tempo escoa monótono, sem as alternativas e as
esperanças das estações novas; não há inverno, não há verão. O dia, mais
curto, não se mede do mesmo modo; a noite reina mais longa. Sem indústrias,
sem invenções, os habitantes de Marte gastam sua vida para conquista de seu
alimento. (Revista
Espírita – out/1860) |
|
Enquanto os melhores
aparelhos da América possuem um diâmetro de duzentas polegadas, com a
possibilidade de aumentar a imagem de Marte doze mil vezes, a astronomia
marciana pode contemplar e estudar a Terra, aumentando-lhe a imagem mais de
cem mil vezes, chegando ao extremo de examinar as vibrações de ordem
psíquica, na sua atmosfera. |
(...) por toda aparte, enfim, monotonia e violência; por
toda a parte, a flor sem a cor e o perfume, por toda a parte homens sem
previdência, matando para viver. (Revista Espírita – out/1860) |
|
— "Irmãos, ainda é
inútil toda tentativa de comunicação com a Terra rebelde e incompreensível! (...).
Lá, os Irmãos se devoram uns aos outros, com indiferença monstruosa! Os povos
não se afirmam pelo trabalho ou pela cultura, mas pelas mais poderosas
máquinas de morticínio e de arrasamento. (...). A ciência de seres como esses
não poderia entender as vibrações mais elevadas do Espírito! (...) Tão
singulares desequilíbrios provocaram na personalidade terrestre um sentido
bestial que lhe corrompe os mais preciosos centros de força (...). Irmãos, (...)
peçamos ao Senhor do Universo para que as modificações, precisas ao seu
aperfeiçoamento, sejam menos dolorosas ao coração de suas coletividades!
Oremos pelos nossos companheiros, iludidos nas expressões animais de uma vida
inferior, de modo que a luz se faça em seus corações e em suas consciências,
possibilitando as vibrações recíprocas de simpatia e comunicação, entre os
dois mundos!..." |
Na tabela anterior, na qual identificamos algumas
similaridades entre os discursos de Flammarion e de Chico Xavier, vimos no
escrito do astrônomo a mesma idéia aqui exposta: a de que os marcianos
tentavam contatar a Terra, que não respondia. As mulheres lançam-se sobre os homens; mais abandonadas,
mais famélicas, não são senão suas mulheres.(...) alimentam e guardam suas
crianças junto delas até o completo desenvolvimento de suas forças, e as
repelem sem remorso, sem uma lembrança. (...) Quando um desses homens vai morrer, ele é logo
abandonado e sozinho, estendido, pensa pela primeira vez; um vago instinto se
apodera dele; como a andorinha advertida de sua próxima migração, ele sente
que tudo não está acabado, que vai recomeçar alguma coisa desconhecida. Ele
não é bastante inteligente para supor, temer ou esperar, mais calcula às
pressas suas vitórias ou seus defeitos; pensa num número de animais que
abateu, e se regozija ou se aflige segundo os resultados obtidos. (Revista Espírita – out/1860) |
Concluindo: Chico Xavier talvez não tenha percebido: com sua
psicografia desrespeitou tanto o escritor Humberto de Campos quanto o
codificador do espiritismo.
No que toca ao escritor maranhense, Chico o constrangeu a assinar crônica
que em vida jamais autografaria.
Relativamente a Allan Kardec, o médium mineiro desdisse o que o patrono
da doutrina afirmara tratar-se de revelação da superior espiritualidade (ou
seja, desacreditou a Kardec e aos espíritos). Sabemos que Kardec e Chico Xavier
estavam tremendamente equivocados em suas descrições sobre Marte. Porém, por
coerência, Chico deveria ter se conservado fiel à argumentação de Kardec. Nem
isso fez.
Podemos, pois, aceitar, como querem nossos amigos espíritas, a
autenticidade das alegadas comunicações mediúnicas?
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